Les misérables
Publicado por JPG, Terça-feira, 17 de Junho de 2008, às 14:31 |
Atenção: este post não é para ser lido por ninguém. Dada a sua absurda extensão e o rompimento absoluto que manifesta com as mais elementares regras “bloguísticas”, toda a gente que por acaso aqui passe deve abster-se de sequer arriscar meter-se a ler semelhante coisa. Pela presente chamada de atenção, o autor declara - e vai avisando, para que depois o não chateiem - que, à uma, cada qual é livre de escrever qualquer merda que lhe vier à cabeça e, às duas, que simplesmente (desta vez) não lhe apeteceu guardar o escrito em outro suporte qualquer. Fica feito o aviso. Click
Ces êtres appartenaient à cette classe bâtarde composée de gens grossiers parvenus et de gens intelligents déchus, qui est entre la classe dite moyenne et la classe dite inférieure, et qui combine quelques-uns des défauts de la seconde avec presque tous les vices de la première, sans avoir le généreux élan de l’ouvrier ni l’ordre honnête du bourgeois.
Victor Hugo, Les Misérables
De vez em quando, um grupo social decide “lutar” por aquilo que julga ser a “justiça”. A eficácia da sua “luta”, dita “justa”, depende do número dos membros que nessa “luta” participam e varia em função da importância que esse grupo detém na estrutura social. No caso de esse grupo constituir, por si mesmo, um pilar dessa estrutura, o número de elementos deixa de ser fundamental para o êxito das suas reivindicações; caso contrário, isto é, se o grupo não pertencer a uma área economicamente estrutural, ou da qual dependa em larga medida a própria sobrevivência do tecido social em que se insere, então aquelas reivindicações apenas poderão vingar através do número de envolvidos.
Isto vale, qual princípio universal, tanto para os grupos profissionais ou sectoriais como para as próprias classes sociais, no seu todo. Se aceitarmos como boa esta conceptualização básica, a teoria encaixa na perfeição no fundamento primordial do pensamento marxista: a força motriz da História é a luta de classes. E poderá servir também para, em última análise, justificar e explicar o funcionamento de todos os regimes políticos: teoricamente, em ditadura governa uma pessoa em nome de uma maioria imutável, sem oposição, e - ainda mais teoricamente - em democracia governa uma pessoa rodeada por um grupo de pessoas, em nome de uma maioria mutável, com oposição.
Tudo extremamente simples, como se vê e confere.
Porém, como sucede por sistema com as belas teorias, e quanto mais belas, pior, este simpático axioma manifesta uma enervante tendência para chocar de frente com aquilo a que se convencionou, e muito justamente, chamar “lógica”: nem uma maioria, por mais esmagadora que seja, terá de forçosamente ser detentora da verdade ou deter o monopólio da razão, nem grupo humano algum defende nada mais (nem nada de mais injusto e redutor) do que os seus próprios interesses. O que significa, se o formularmos de maneira igualmente simplista, que tanto a verdade como a justiça estão por inerência fora de cogitação, em tudo aquilo que à (porca da) política diga respeito.
Servem estes considerandos como intróito, por assim dizer, para que tentemos pôr alguma ordem na confusão que por aí vai quanto aos eventos político-sociais mais recentes. Sejamos claros, a coisa não está fácil. Além de vícios de forma conceptuais, como confundir “corporações” num Estado corporativo com “corporações” num regime de Democracia parlamentar, quase todos aqueles que publicam alguma coisa sobre a actualidade tendem a misturar coisas tão diferentes como “interesses” e “direitos” ou - encurtemos razões quanto a isto - reivindicações com pura selvajaria.
O que se tem passado quanto à alta dos combustíveis é de todo inadmissível, em qualquer Estado de direito. Assistimos, impassíveis uns, em pânico outros, a manobras de pressão absolutamente intoleráveis numa sociedade organizada. Primeiro, foram os pescadores, depois os camionistas e agora são os agricultores; sectores estruturais, todos eles, e não por acaso. De facto, se qualquer deles parar, e por maioria de razões o sector dos transportes, a economia nacional bloqueará inevitavelmente num prazo curtíssimo, de alguns dias apenas. A pretexto de reivindicações que protestam ser de extrema, elementar e evidente “justiça”, bem vimos as consequências, sob a estranha passividade das chamadas “forças da ordem”: estradas cortadas, camiões sabotados ou mesmo incendiados, ameaças e pancadaria àqueles que, por qualquer motivo, pretenderiam não aderir à “causa”, marchas lentas, buzinões, bloqueios e assim por diante.
A violência tem, por estes dias e em total impunidade, servido de paradigma a mais uma “luta” - dita “justa”, como é tique de uso, mas que perde toda e qualquer credibilidade a partir do momento em que se baseia na intimidação (do Estado e dos cidadãos), no fomento da desordem, na violência desproporcionada e indiscriminada, na ocupação selvagem de áreas públicas, na destruição de propriedade… privada e pública, enfim, em toda a sorte de desmandos que, em circunstâncias normais, poriam atrás das grades os seus autores.
No entanto, a julgar pelo que (não) vai fazendo o Governo português, parece que nem as circunstâncias são normais nem nenhum daqueles desmandos tem importância alguma. Completamente aterrorizados, e cedendo à chantagem e à ameaça em toda a linha, os nossos governantes resolveram capitular, render-se miseravelmente aos arruaceiros - e empenhar desde já, a troco de mais uns tempos no poder, todos aqueles que teoricamente representam e, em última análise, a própria viabilidade de uma nação inteira.
Ninguém é nem será, pelo que se vê, responsabilizado pelos incalculáveis prejuízos que estas acções causaram em inúmeras empresas e, por consequência, pelas inúmeras tragédias pessoais que daí advirão com certeza: falências, despedimentos, mais fome e miséria. Não estão contabilizadas, nem sequer por alto, as terríveis consequências que esta turbulência social acarreta para todos aqueles que, não tendo nada a ver com o assunto, dependem em absoluto de um sistema a funcionar: quantos contratos de fornecimento foram anulados por quebra de prazos de entrega; quantos clientes definitivamente perdidos, porque tiveram de arranjar à pressa fornecedores alternativos; quantos agravamentos de encargos drásticos e, destes, quantos absolutamente ruinosos; quantas encomendas se estragaram nos contentores e quantas foram devolvidas à procedência por esse motivo ou quantos “stocks” se deterioraram por falta de escoamento. E também por alto, em simples contas de merceeiro, falta apurar quantos milhões de horas de trabalho se perderam, por falta de ou por atraso nos transportes. Por fim, e apenas para completar o ramalhete de despesas contabilizáveis que são prudente e sistematicamente escamoteadas, convém referir que ninguém sabe ao certo quantos milhões de euros sairão - a curto, médio e longo prazo - do erário público, ou seja, do bolso do contribuinte, para pagar as cedências efectuadas pelo Governo em nosso nome.
Enquanto milhões estão distraídos a ver a bola, umas centenas - ou dezenas - de paus-mandados, cumprindo ordens de dois ou três manda-chuvas, entretêm-se a destruir alegremente o que resta de uma economia já de si em muito mau estado. Equacionar os interesses particulares de um grupo, quando está em causa o interesse nacional, equivale a um suicídio colectivo a prazo; com a crise generalizada espoletada pela alta dos combustíveis, por quanto mais tempo aguentará - de forma coesa e funcional - todo o tecido empresarial nacional? E como tolerar, nesta conjuntura, que sejam precisamente os sectores estruturantes os únicos a escapar à crise e, com isso e por causa disso mesmo, agravar ainda mais as condições de vida de toda a população?
Os professores em particular e os funcionários públicos em geral manifestam-se em massa, mas não têm camiões para bloquear as estradas nem para levar milhares de empresas à falência; portanto, e por conseguinte, os funcionários e os professores não têm razão, tenham lá paciência, aguentem-se à bronca, a crise toca a todos.
Já os camionistas, os pescadores, os agricultores, ah, bem, esses sim; esses têm meios para paralisar totalmente o país, para sitiá-lo ou, pior ainda, para fazê-lo render-se - pela fome e à míngua de tudo. Ou seja, assim sendo, então estes têm toda a razão nas suas reivindicações, haja fé, é dar-lhes tudo o que eles quiserem, quando não… estamos lixados.
Mas que raio de lógica política é esta, que porcaria de governantes são os nossos, que espécie de cretinos são estes que assim põem em risco permanente a viabilidade da sua pátria?
Num quadro político de alternância de poder, entre apenas dois Partidos que não passam de cópias fiéis um do outro, aquilo a que se vai assistindo é, além de deprimente, extremamente previsível: a putativa “oposição” abstém-se de sequer comentar o que se vai passando, porque lhe convém a convulsão social, o descontentamento popular - é essa a forma mais comum (e mais rápida) de a dita “oposição” alcançar a única coisa que lhe interessa: o Poder.
Em tempos não muito remotos, quando existia uma Constituição, o crime - agressão, destruição, sequestro, fogo posto, usurpação, sabotagem, perturbação da ordem pública - não dependia do número e do poder de quem o pratica - ou era crime ou não era crime. Do mesmo modo, in illo tempore, atentar contra o interesse nacional (por acção ou por omissão) podia ser considerado, sem mais, traição à pátria.
Quando vemos uns a destruir, em total impunidade, e outros a assobiar para o lado, como se nada se passasse, o que temos então? O velhinho nacional-porreirismo, de novo? E a gente ainda se pode dar a esse luxo?
Quando quem está no Governo apenas faz o que pode para lá se manter e quando quem está na “oposição” apenas pretende chegar ao Poder, aquilo que se passa é o quê?
Será isto a corporização daquilo a que se chama “democracia”?
Não me parece.
Categorias: liberdade
Etiquetas: Governo, multidão, politica, Portugal, sociedade
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