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A Internet em Tribunal

Publicado por JPG, Quinta-feira, 4 de Junho de 2009, às 15:16 |

No passado dia 2, foi lida no Tribunal de Montemor-O-Velho a sentença do meu julgamento, já aqui antes referido, facto que teve alguma repercussão em diversos órgãos de comunicação social1 e também em alguns blogs.

Absolvido do crime de calúnia e difamação, fui no entanto condenado a uma pena de multa (880 €), pelo crime de gravação ilícita. De realçar, esclarecendo as pessoas menos ao corrente destas coisas da Justiça, que as penas de multa revertem para o Estado e não para quem se queixa ou acusa.

De todas as incidências deste julgamento, de evidentes complexidade e especificidade, ressaltam principalmente dois factos: por um lado, tratou-se de um caso inédito, ou seja, para o qual não existiam nem precedentes nem, por conseguinte, qualquer espécie de jurisprudência; por outro lado, e também nisso houve total ineditismo, a minha defesa foi assumida - tanto pelo meu advogado como pelas minhas testemunhas - por simples solidariedade para com a causa da transparência, da honestidade e da hombridade na Internet, este meio virtual em que todos os que por aqui andam cada vez mais estão entregues exclusivamente a si próprios… sem rei nem lei que lhes valha.

Parece-me de realçar que apenas quanto ao crime de gravação ilícita não vingou a tese da defesa, que propugnava a exclusão de ilicitude tendo em atenção os fins em vista, ou seja, a legítima defesa (não própria, mas alheia); e isto sucedeu exclusivamente porque o crime de gravação ilícita foi por mim confessado, de forma expressa e, porque não dizê-lo, com orgulho. A absolvição quanto aos restantes crimes de que vinha acusado resultou de ter verificado o Tribunal não ter havido qualquer animus difamandi na divulgação da referida gravação. Mesmo não tendo sido relevado o facto de que não teci quaisquer considerações sobre os conteúdos publicados, deixando a cada qual que os lesse, visse ou ouvisse a liberdade para tirar as suas próprias conclusões, ficou claro que não tive outra intenção que não fosse a de alertar a comunidade cibernética para uma prática irregular, a qual poderia vir a prejudicar elementos, indivíduos dessa mesma comunidade virtual, pelo menos tanto como a mim próprio a dita prática prejudicou.

Na minha opinião (e espero não constitua ainda delito exprimir o que nos vai na alma), não fui total e absolutamente absolvido porque a mesma comunidade à qual o meu alerta se destinava resolveu, grosso modo, alhear-se da questão; se, em vez dos “apenas” 7 bloggers que depuseram a favor da causa lá tivessem estado 70 (por exemplo), estou certo de que as coisas teriam sido diferentes; se tivesse havido uma vaga de fundo, caso a “blogosfera” em particular se tivesse mobilizado por algo que lhe dizia inteiramente respeito, então sim, teria ficado provado por inteiro que se tratou de um acto de cidadania e que a cidadania, pelo menos até ver, não deve nem pode ser confundida com um crime, mesmo que ou especialmente se confesso.

Não conhecia pessoalmente nenhuma das minhas testemunhas, à data dos factos de que fui acusado. Foram pessoas que se solidarizaram comigo porque reconheceram mérito numa causa que era (e é ainda) também de todos e de cada um deles. Para esses verdadeiros heróis da luta por uma comunidade virtual honesta e transparente que ali estiveram, com tanto sacrifício pessoal e de forma tão corajosa, daqui envio uma palavra de profundo apreço e um grande abraço de imensa gratidão.

Poucos mas bons, como se costuma dizer. E se não há dúvidas sobre o modo como foram bons, todos eles, já não será tão fácil apurar porque terão sido apenas estes 7 a estar no julgamento, reafirmando o carácter cívico da acção que lhe deu origem. Mas também sobre isto tenho uma opinião. Pessoalíssima, obviamente.

A Internet é uma coisa muito recente, em Portugal. No caso particular dos blogs e, mais recentemente ainda, das redes sociais, estamos numa idade equivalente à pré-adolescência, com todos os problemas comportamentais, erráticos e por vezes descabidos, que são característica intrínseca de um corpo em formação. E a isto, que já não seria pouco, acresce uma particularidade, também ela idiossincraticamente aplicada ao caso português e também ela típica dessas idades irresponsáveis e frenéticas: os “gangs”. Quando eu era garoto, chamava-se “gandulos” àqueles que entretinham todo o seu tempo a partir vidros ou a riscar automóveis, por exemplo.

Pois na “web” portuguesa, aos seus 8 ou 9 ou 10 anos, assiste-se a algo muito semelhante: grupos mais ou menos organizados que se guerreiam mutuamente por puro ócio e que, já com alguns laivos de hierarquia interna e de correlações de poder, são no seu conjunto capazes de provocar estragos sérios na própria estrutura social… virtual. Alguns desses “gandulos” arvoram-se mesmo em pequenos chefes de clã (o gang), com o seu inevitável e perigoso séquito de “seguidores”, e parece até já ser possível verificar, sem grande esforço ou perspicácia, que existe por aí um “chefinho” máximo, espécie de “Papa” das diversas comanditas, que a si mesmo atribui extraordinários poderes… como o decidir se determinada coisa ou causa interessa ou não aos demais.

O caso agora julgado foi um exemplo paradigmático dessas “coisas” que ao dito “chefinho” não convinham, vá-se lá saber “alegadamente” por que bulas. Tivesse ele ou um dos seus apaniguados dado o devido destaque ao sucedido e outro galo cantaria, com toda a certeza. Aliás, bastaria não ter instigado outros à traição, como fez aquele e fizeram estes, e já tudo teria sido diferente.

Mas não percamos mais tempo com ruins defuntos, porém. Parece-me ter ficado clara e suficientemente explicada a razão pela qual não se mobilizou a “lusosfera” em peso por uma causa que era (e continua a ser) sua.

Este julgamento não mexeu em um átomo de qualquer das minhas convicções. Continuo a acreditar que nós existimos para o bem e não para o mal - e que isso vale tanto na vida quotidiana como no mais cibernético dos mundos. Continuo a acreditar que existe gente boa, solidária e corajosa, gente que lutará até ao fim na defesa da Justiça e dos seus semelhantes - mesmo daqueles que, pela sua cobardia e desfaçatez, deveriam apenas ser votados ao mais profundo desprezo. Continuo a acreditar que existe uma Justiça divina, superior, supremamente absoluta, que pode tardar mas que nunca falha.

O futuro a Deus pertence. Se este mesmo Deus quiser, e se a saúde o permitir, cá estaremos - um dia destes - para relatar o que se seguir, se se seguir e se isso for de algum proveito para alguém.

1 Tanto a notícia original, da Agência Lusa, como as respectivas reproduções ou adaptações contêm diversas inexactidões, lacunas e até mesmo opiniões onde deveriam estar apenas factos, sendo tudo isso facilmente perceptível para quem estiver minimamente dentro do assunto.

Categorias: media, O Site, liberdade

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7 Comentários

Pingback por Ainda sobre a internet em Tribunal e a leitura da sentença « Denúncia Coimbrã

Feito Sexta-feira, 5 de Junho , 2009 às 01:47

[…] JPG, um dos intervenientes do caso, esclarece. […]

Comentário por matrix

Feito Sexta-feira, 5 de Junho , 2009 às 04:00

JPG, antes de mais as minhas felicitações.
Confesso, porém, que fiquei triste, não apenas com a falta de apoio (típica também no real da maioria dos portugueses!) da comunidade cibernética nacional, mas também com a perda de todo um trabalho acumulado ao longo de vários anos e que, creio, não ter sido tido em conta.
Por outro lado, o espaço-tempo (mais de 2 anos!) entre os acontecimentos e a acção judicial também resultam nesta espécie de “alheamento”…, por outras palavras: é a injustiça de uma justiça lenta!
Abraço

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Feito Sexta-feira, 5 de Junho , 2009 às 13:05

[…] Justiça, internet — O. Braga @ 1:05 pm Tags: Justiça Eu já estava a contar com o desfecho da decisão do tribunal de Montemor-o-Novo no “caso Apdeites” (pelas informações que tenho recebido) porque a lei é propositadamente omissa no sentido de […]

Comentário por IsabelF

Feito Segunda-feira, 8 de Junho , 2009 às 09:16

Olá JPG,

Bom dia …

Fica aqui a minha “mea culpa” …
senti-me mesmo mal com este teu post …
e dou a mão à palmatória ….
pois faço parte do grupo de pessoas que concorda contigo e …
não dei um passo …
ainda por cima por uma razão bem estupida e que poderia ser contornada …

simplesmente porque estás num local que geograficamente é longe do meu …
não conduzo …
e se tivesse que me eslocar lá seria uma “chatice” …

assumo publicamente a minha atitude de “comodismo” …

da qual … acredita .. me envergonho …

espero que não haja uma próxima vez em tribunais ….
mas não voltarei a repetir esta atitude …

com toda a consideração …

bjs
isabel

Comentário por JPG

Feito Segunda-feira, 8 de Junho , 2009 às 13:10

Olá, Isabel.
Bem, por amor de Deus! Nunca, nunca, nunca, mas mesmo nunca este “post” poderia atingi-la a si ou a qualquer dos meus amigos virtuais.
Os alvos são bem claros, parece-me, e se porventura de alguma forma a incomodou este texto, apenas me resta lamentar que isso tenha sucedido. E perdoe-me, por favor; aceito perfeitamente que a coisa possa estar mal escrita, dando origem a mal-entendidos.
Um grande abraço de amizade.
JP

Comentário por José Pedro

Feito Terça-feira, 9 de Junho , 2009 às 08:59

Parabéns! A sentença não me parece nada má, se exceptuarmos o facto de que 800 paus é um bocado de massa a mais para ouvir uma voz ranhosa. Quanto ao outro lado da questão, o facto de ter perdido os ficheiros, postagens, arquivos, etc., não será isso passível de acção contra o dito cujo?
Também eu, tal como a Isabel, me penalizo por não ter podido estar lá. Bolas! Nem ao aniversário da minha tia, que mora aqui perto, consegui ir.
Um grande abraço!

Comentário por pedronunesnomundo

Feito Quarta-feira, 10 de Junho , 2009 às 13:13

JPG

tão tarde demais quanto um processo que chegou ao seu fim, deixo um abraço

mesmo não tendo sido um dos 7 mas um dos 70, louvo e agradeço a obstinação da luta contra uma máquina que continua a apoucar quem na net afirma a sua identidade - e, perigo dos perigos, as suas ideias! - sendo que cada luta travada aproveita a TODOS os que cá andam e virão

a internet é um espaço difícil de digerir para alguns, que a não conseguem domar
só lançar-lhes as teias e enleios de um sistema desenhado à sua imagem e segundo a sua medida, que colocam ao seu serviço, esperando enfraquecê-la e desacreditá-la

mas eu acredito no poder da net contra este tipo de poder total auto-gerido
acredito na bravura de um combate de quem o faz singular, de cara destapada e de cara lavada, contra um poder bruto e cobarde que nem sequer a mostrar a verdadeira cara se afoita
acredito que há uma nova forma de exercer a cidadania que está a formar-se (…agora na pré-adolescência, como dizes) e há-de ser tido em conta e incontornável daqui a um par de gerações

vejo-te - e muitos outros que já por aí andam - como pioneiros do que ainda muitos não vêem e não sabem
com o que isso tem de inóspito e aventureiro

e agradeço-te pela parte que me toca
que o futuro é em frente

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